Diante do caos que se instalou na cidade do Rio de Janeiro por conta da violência, venho testemunhar que o problema social é um agravante para esta situação, mas não o único fator. A questão que envolve tantos menores infratores e o crescimento da criminalidade deve envolver toda sociedade brasileira em debates e ações.
No ano de 2006, de agosto à dezembro, atuei como voluntária no Centro de Acolhimento de Benfica. Este voluntariado está ligado ao Serviço de Capelania Pós-Desastres da Defesa Civil do Estado do Rio de Janeiro, tendo como coordenador o Ten Cel Silva Costa. A equipe do SECAP é composta de católicos e evangélicos. Assistíamos aos albergados no conforto espiritual e emocional. Nos sentimos honrados em contribuir com o apoio tão necessário as pessoas carentes. Nosso serviço terminou no dia 30 de janeiro de 2007.
O CAB esteve sob os cuidados de uma ONG que não cumpriu com seu papel social tendo que deixar o local em junho de 2006. Por questões políticas, o Governo do Estado acionou a liderança da Defesa Civil que estava sob o comando do Cel Carlos Alberto de Carvalho. De forma emergencial, parte da equipe do Corpo de Bombeiros, na direção do Ten Cel Silva Costa, foi deslocada para o CAB com intuito de garantir qualidade de vida aos albergados.
Quando nós adentramos ao CAB, avistamos um local hostil, abandonado, com corredores sujos, de odor desagradável, pessoas apáticas e desesperançadas. Fazíamos escalas entre a equipe de voluntários e distribuíamos as tarefas de acordo com o potencial de cada um.
O trabalho iniciou em agosto, mas por questões profissionais eu não pude dar assistência no período de 50 dias, retornando dia 18 de outubro. Neste dia foi realizada uma reunião com a equipe de voluntários, o Capelão Marcelo da Defesa Civil e o coordenador Ten Cel Silva Costa. Após o término da reunião, o coordenador nos conduziu para vermos as novas mudanças realizadas no CAB. Tal foi minha alegria ao verificar as melhorias em tão pouco tempo. Novas instalações da creche, da lavanderia, do refeitório, refeições mais adequadas (cinco refeições por dia), alguns albergados empregados, pessoas recebendo aparelhos auditivos, assistência psicológica, programa do Bombeiro Mirim com crianças do albergue, curso de artesanato, cursos profissionais, e muito mais. A direção do CAB recebia um terço do valor que a ONG recebeu e soube executar com primor o serviço que lhes foi confiado.
Entretanto, sabíamos que o Corpo de Bombeiros não permaneceria no CAB após a nova mudança de Governo. Ao iniciar o ano de 2007 as verbas diminuíram e assistimos a queda do trabalho e conseqüentemente dos moradores. Aos poucos os oficiais do Corpo de Bombeiros foram deslocados para outros setores dentro da corporação.
Sabemos que o trabalho de ressocialização é de longo prazo. Não seria diferente com a população do CAB. Se não houver investimento em pessoal qualificado, estrutura adequada, verba suficiente e trabalho em comum acordo, vamos continuar assistindo a morte de muitos inocentes e o povo retroceder ao período pré-histórico.
Com o crescimento da violência o debate sobre a questão social está bem ativo. Mas não entendo quando a necessidade é urgente e cortam o trabalho que estava dando certo. Trabalho que contribuía com a valorização do ser humano e conseqüentemente dando oportunidades àqueles que estão à margem da sociedade. Além de uma disciplina adequada para mudar os maus hábitos adquiridos no ambiente externo.
Todavia, cuidar do social como o grande salvador esquecendo que pessoas criminosas merecem punições conforme seus crimes e responsabilizar somente o social, é uma tremenda ingenuidade. Existem criminosos irrecuperáveis.O discurso que ninguém nasce bandido é fato. Mas também ninguém nasce Madre Teresa de Calcutá ou Francisco de Assis. Conforme a educação recebida e falta de oportunidades geramos criminosos perigosos. Mas também alegar que todo aquele que vive nestas circunstâncias tende a ser criminoso, é outra ingenuidade, e porque não dizer falta de memória histórica. Pobreza não é sinônimo de criminalidade.
Tenho participado de movimentos de cunho pacífico que luta contra a violência e alguns debates promovidos por políticos. Assusta ver tanta competência através de articulações verbais de políticos e pouca atitude concreta pelos mesmos. Estamos divididos e os bandidos estão ganhando mais força.
Tenho ouvido que falar sobre maioridade penal é um assunto longo. Concordo. Não podemos tomar medidas precipitadas. Mas medidas devem ser tomadas com mais rapidez, pois o tempo urge. Além do que, o bandido quando assalta, não espera um debate com você, para que explique por que não pode ceder o carro que comprou com tanto esforço ou porque não pode lhe dar o dinheiro que foi do salário suado do mês. Se você não entregar logo, ele te dá um tiro. Com eles não existe debate.Tanto é que os bandidos não deixaram a mãe de João Hélio tirar o menino do carro, foi logo pegando o volante e acelerando os 7km com o menino sendo arrastado. Não levaria mais de 10 segundos para retirar o cinto de segurança. Acontece que eles não iriam promover um debate longo com a Dna. Rosa Fernandes.
Como os senhores podem perceber, mencionei um trabalho de ordem voluntária com veracidade nos fatos. Quero deixar claro que esta declaração não envolve nenhum sentimento partidarista ou pessoal entre governo anterior e atual. Meu sentimento é de cidadã brasileira insatisfeita com o contexto atual da cidade do Rio de Janeiro. E porque não dizer de todo o país.
Não se mexe em time que está ganhando, e mais ainda, não se mexe em trabalho social que está frutificando.
Concluo que criminoso merece sua punição conforme o crime cometido, seja ele quem for; ser pobre não significa ser transgressor da lei; o social deve receber o máximo de investimento e a união de todos os líderes políticos com a sociedade cumprirá que nosso futuro espelha a grandeza do Brasil.
MIRIAM ZANUTTI
domingo, 8 de abril de 2007
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